



No 1º de maio de 1946, o Hotel-Termas Quitandinha abriu a exposição do pintor gaúcho Wilson Tibério, que foi noticiada nos dias seguintes em jornais diários do Rio de Janeiro e Petrópolis como parte de uma iniciativa do Quitandinha de divulgar a pintura nacional em seus salões e corredores. As telas em exposição eram parte do interesse permanente
do pintor em documentar o cotidiano de pessoas negras como ele próprio.
Wilson Barcelos Tibério nasceu no dia 24 de novembro de 1920, na cidade de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Após passar por alguns ateliês de artistas em sua cidade natal, o jovem Tibério decidiu, ao alcançar a idade adulta, mudar-se para o Rio de Janeiro e encarar o desafio de se profissionalizar como artista.
Os primeiros anos na capital federal foram intensos para o jovem Tibério. Os desenhos debaixo do braço se tornaram um meio de sustento e encontraram seu caminho nas páginas de jornais e revistas, onde publicava esboços produzidos no cotidiano do Centro do Rio de Janeiro, entre trabalhadores ambulantes, frequentadores de bares e transeuntes. Pessoas que retratava a distância ou com quem interagia durante sua prática artística.
Nos anos seguintes, ele foi aos poucos ocupando espaços no mundo da arte, com obras que passaram a aparecer de forma constante em exposições coletivas. Numa pintura de 1941, a mais antiga dentre as que conhecemos do pintor, Tibério retratou a si mesmo num ateliê vestindo um jaleco branco, com um quadro no cavalete que traz uma mulher numa posição clássica do ensino de pintura
— como quem envia notícias para casa dizendo que seu plano de se tornar artista na capital federal estava correndo muito bem.
Sua primeira exposição individual ocorreu em outubro de 1945 na Associação Brasileira de Imprensa (ABI). “Motivos afro-brasileiros”, como foi chamada por ele, deu início a uma
sequência de mostras em que apresentava uma visão ampla da experiência negra de diferentes regiões do Brasil, entre retratos, cenas íntimas da vida cotidiana e celebrações públicas. Naquele mesmo ano, o artista tinha participado da montagem da peça O imperador Jones, de Eugene O'Neill no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, estreia do Teatro Experimental do Negro nos palcos com direção de Abdias Nascimento.
A mostra da ABI foi sucedida por duas grandes exposições realizadas no ano seguinte: a primeira em maio de 1946 no Quitandinha e a segunda em novembro na sede do Ministério da Educação e Saúde. Durante a produção dessas exposições, o Rio de Janeiro estava imerso nos debates em torno da finalização da nova Constituição federal, assinada em setembro de 1946. Questão de especial interesse para Tibério, se considerarmos seu obstinado engajamento político nos anos de desmonte do governo ditatorial do Estado Novo. Nesse período, ele acompanhou outros intelectuais negros como Abdias Nascimento e Aguinaldo Camargo a encontros com partidos políticos recém-saídos da ilegalidade para promover uma agenda marcadamente antirracista
Em 1947, Tibério mudou-se definitivamente para a França, na busca de realizar seu sonho de conhecer a África. Em suas visitas a diversos territórios do continente africano, o pintor não apenas documentou o “continente negro”, como também demonstrou sua revolta contra as violências do poder colonial. Nas décadas seguintes, passou a integrar círculos formados de intelectuais negros de todo o mundo, vivendo na constante Diáspora Africana até sua morte, em 20 de julho de 2005.
Quando começou a realizar exposições individuais, o pintor militante Wilson Tibério desenvolveu o costume de, a cada conversa com jornais e revistas, dedicar as mostras a intelectuais e lideranças negras. Os líderes abolicionistas José do Patrocínio e Booker T.
Washington e a ialorixá Mãe Menininha do Gantois são alguns dos nomes mencionados
por ele no período. Ao rememorar a passagem de Wilson Tibério pelo Quitandinha, nos
perguntamos quem o pintor homenagearia se vivesse hoje? Que avanços ele reconheceria como resultado da luta de seu tempo, e que desafios ele enxergaria para a construção de uma sociedade mais justa?
Texto crítico:
Wilson Tibério: quadros de referência para uma memória social negra por Mário Augusto Medeiros da Silva
Vídeo Thomas Mendel.
Fotografias Thomas Mendel, Lucas Landau.
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legendas da parede de periódicos
As primeiras reportagens publicadas em 1940 sobre Wilson Tibério traziam detalhes da prática do artista como ilustrador logo após chegar ao Rio de Janeiro. Naquele momento, seus desenhos do cotidiano do centro da cidade seduziram editores da imprensa ilustrada, que garantiram sua publicação junto com textos que apresentavam Tibério aos seus leitores. Era comum entre os jornalistas, que davam notícias da aproximação de Tibério com a indústria gráfica, criticarem a desvalorização da ilustração em detrimento da pintura, e como esse fato impactava o cotidiano daquele “flagrantista do Rio”.
Na crônica de Rivadávia de Souza, os francos elogios à técnica de seus desenhos são acompanhados de um tom sensacionalista em relação a sua condição financeira. Visão que se repete por todo o texto, desde o seu título: “Wilson Tibério, o artista que não sabe se compra um lápis ou toma uma média com pão com manteiga…” Perto do fim de sua apresentação de Tibério, o jornalista revela com certa indiferença que a desigualdade racial já era uma preocupação do pintor, “Wilson Barcelos Tibério, para aproveitar uma expressão que tanto tem de usual como de vaga, é um homem de cor”.
Em outubro de 1945, Tibério apresentou na exposição “Motivos afro-brasileiros”, na sede da Associação Brasileira de Imprensa, sessenta obras, entre telas pintadas com tinta a óleo, aquarelas, desenhos e gravuras em água-forte. Uma breve nota publicada no dia 16 daquele mês no jornal A Noite revelava os temas de algumas das obras da mostra: “Lavadeiras, cantores de rua, sambistas, macumbas, detalhes de carnaval, enfim, toda uma faceta encantadora da vida carioca desfilará pelas telas de Wilson Tibério”. Em uma reportagem na revista Fon-Fon!, podemos identificar uma cena carnavalesca que traz o título Praça Onze. Nela, a ampla celebração protagonizada por pessoas negras parecia tensionar conflitos recentes em relação à ocupação do espaço urbano no centro da cidade do Rio de Janeiro. A Praça Onze, onde havia ocorrido os primeiros concursos de escolas de samba no início da década de 1930, tinha sido destruída nos últimos anos quase que completamente para a construção da avenida Presidente Vargas, que foi inaugurada em 7 de setembro de 1944 e se tornou naquele momento um marco do governo autoritário do Estado Novo.
A abertura da exposição de Tibério no Quitandinha em 1946, no dia do trabalhador, ressoava sua prática política nos últimos anos. Em 1944, o pintor esteve presente na criação do Teatro Experimental do Negro (TEN) e participou de sua primeira montagem, O imperador Jones, de Eugene O’Neill. Para além de um grupo de teatro, o TEN se tornou um núcleo de articulação política antirracista que assumiu posição estratégica no debate intelectual nos anos seguintes. Após o final do Estado Novo, muitos partidos saíram da ilegalidade, voltando a operar formalmente no país. Em 1946, Tibério, ao lado de outros companheiros do TEN, se envolveu na criação do Diretório Negro do Partido Trabalhista Brasileiro e se filiou ao Partido Comunista do Brasil, acompanhando um crescente diálogo dos movimentos negros organizados com as instituições de Estado.
Na exposição “Motivos rituais afro-brasileiros”, realizada em novembro de 1946, no Ministério da Educação e Saúde, ele apresentou 127 obras, entre pinturas a óleo, desenhos e aquarelas, produzidas por ele durante uma viagem a Salvador. Essa foi certamente a mostra de Tibério de maior dimensão feita no Brasil. Junto com a abertura da exposição, o Alvorada — jornal da imprensa negra paulista — publicou uma entrevista com o artista. Quem o entrevistou foi o jornalista Isaltino Veiga dos Santos - sujeito com longa estrada nos movimentos negros organizados de São Paulo, tendo sido um dos fundadores do Centro Cívico Palmares em 1926 e da Frente Negra Brasileira em 1931. A Isaltino dos Santos, o pintor revelara seu plano de viajar ao “continente negro” até março do ano seguinte. Ele conta que o faria com seus próprios recursos, ao contrário do rumor de que havia conseguido uma bolsa, e a viagem seria a realização de um sonho antigo de conhecer o continente de onde vieram os seus ancestrais. Na Revista da Semana, um texto sobre a trajetória recente de Tibério foi publicado por Aguinaldo Camargo, que era advogado, agrônomo e ator do Teatro Experimental do Negro desde sua criação.
A cada entrevista sobre a exposição de novembro de 1946, Wilson Tibério dedicava a mostra a diferentes homens e mulheres, formando uma constelação de referências estimadas pelos movimentos negros do período. Em uma dessas conversas, o pintor homenageou dois abolicionistas negros do século XIX: o jornalista brasileiro José do Patrocínio e o norte-americano George W. Carver. Este último, um polímata que nasceu na escravidão e viveu a abolição em seu país, tornando-se em seguida educador, agrônomo e praticante da pintura botânica. Em outros momentos, o artista dedicou a exposição a figuras como Paul Leroy Robeson — contrabaixista, jogador de futebol americano e ator que havia protagonizado em 1925 a primeira remontagem de O imperador Jones, de Eugene O’Neill nos Estados Unidos; e a cantora lírica Marian Anderson, que visitaria o Brasil dois anos depois, sendo calorosamente acolhida em eventos sociais pelo Teatro Experimental do Negro.
texto que acompanha a vitrine de periódicos
Os jornais e as revistas do período em que Wilson Tibério viveu no Rio de Janeiro são um importante material para acompanhar o desenvolvimento da sua produção artística. Nos primeiros meses de 1940, ele passou a visitar redações de diferentes veículos de imprensa para mostrar seus desenhos a editores. Naquele momento, a ilustração permitiu àquele artista recém-chegado na cidade uma inserção rápida no mundo do trabalho. Por outro lado, aquela produção se tornou também um modo de Tibério praticar e fazer circular sua arte, a despeito da falta de um estúdio e melhores condições para trabalhar com outros formatos.
Nos anos seguintes, ele trabalhou como ilustrador na imprensa e expôs ano após ano no Salão Nacional de Belas Artes, na categoria de Artes Gráficas. Foi nesse período que o pintor conheceu Abdias Nascimento, Aguinaldo Camargo e outros parceiros do Teatro Experimental do Negro. Em 1944, Tibério esteve no primeiro encontro do grupo no bar Amarelinho, no centro do Rio de Janeiro, e acompanhou toda a montagem de O imperador Jones, a primeira peça montada pelo grupo, que estreou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro em maio de 1945.
Após realizar ao longo de 1946 exposições no Hotel Quitandinha e no Ministério da Educação e Saúde, Tibério passou a planejar de forma mais objetiva sua mudança do Brasil. No início do ano seguinte, decidiu fazer uma série de pinturas sobre as baianas de acarajé que trabalhavam nas ruas do Rio de Janeiro. Naquela ocasião, essas trabalhadoras se tornavam cada vez mais escassas devido à falta de apoio do poder público para mantê-las no comércio, como revela o próprio Tibério à Revista da Semana.
Nessa série de pinturas, o artista estava decidido a experimentar novos métodos para o seu processo criativo. Ele convidou algumas mulheres para encenar em estúdio sua concepção das imagens que gostaria de produzir, realizando suas pinturas baseado na observação num ambiente controlado e em fotografias. Dentre as modelos que posaram para Tibério nessa circunstância, está a atriz e dançarina Vera Regina, que anos mais tarde, quando havia alcançado a fama, relembra a experiência de posar para o pintor.
Depois de sua mudança para Paris, as notícias sobre Wilson Tibério se tornaram cada vez mais escassas na imprensa. Em janeiro de 1956, o jornalista Justino Martins, que também vivia na capital francesa, atualizou um pouco o público brasileiro sobre a vida do pintor em uma reportagem publicada na Revista do Globo de Porto Alegre. Martins relata descrições do pintor em relação a uma de suas passagens pelo Senegal, onde havia realizado pinturas, mas também teria entrado em conflito com o governo colonial francês da época.
Dentre as imagens que ilustravam a reportagem, estavam algumas das telas produzidas no Senegal, e que estavam naquele momento em exposição na Galerie Paul Mary, localizada na Avenue Mozart, em Paris. Em seu texto, Martins descreve a circulação de Tibério na capital francesa entre migrantes africanos e estudantes brasileiros, em 1951, além do sucesso da atual exposição, que estava atraindo não apenas outros artistas e intelectuais, mas também políticos brasileiros e franceses.
Em setembro do ano seguinte, as exposições de Tibério no exterior chamam novamente a atenção de jornalistas brasileiros. Dessa vez, foi uma exposição realizada em uma galeria na Rue de la Boétie, em Paris, sob patrocínio do Ministério das Relações Exteriores. O apoio do Itamaraty para a mostra fazia parte de um projeto voltado para brasileiros vivendo na França, e Tibério foi um dos contemplados. A exposição ganhou grande visibilidade no Brasil e na França, recebendo elogios de críticos de arte como Quirino Campofiorito.

Apesar da imagem não dar a dimensão da presença de mulheres no evento, a quase total ausência delas na fotografia fala de uma desigualdade que foi denunciada em uma carta assinada como “Um grupo de mulheres negras”, publicada nos anais do evento. No documento, elas apontavam a desigualdade de gênero nas articulações políticas e a ausência de mulheres entre os chefes de delegações.
A partir dos anos 1960, com o início das independências africanas, Tibério passou a estabelecer relações mais estreitas com o continente. Em 1962, realizou uma mostra em Abidjan, na Costa do Marfim, para onde retornou anos depois. Expôs também no Níger e, em 1966, participou do 1° Festival Mundial de Artes Negras em Dakar, no Senegal. No período, realizou também exposições na China, Rússia, Itália e França.
O legado de Wilson Tibério está disperso pelo mundo, assim como os frutos de sua luta por liberdade. No presente, a lembrança de sua trajetória é um convite à reflexão sobre esses valores, e um convite para que eles possam inspirar um mundo mais justo.
O sonho de viver no continente africano levou Wilson Tibério a França em 1947, onde se estabeleceu nas décadas seguintes. Os primeiros contatos com a África ocorreram anos antes dos processos de descolonização do continente, que ganharam força a partir de 1960. Em diversas conversas, Tibério relembra seu sentimento de repulsa diante do tratamento dado aos trabalhadores pelos agentes do poder colonial francês no Senegal, que o fez lembrar-se do antigo processo escravista. Seus atos de revolta o fizeram ser expulso daquele território.
De volta à França, Tibério (1) se associou a outros indivíduos com quem compartilhava a mesma indignação em relação à perpetuação do racismo no mundo. Com base nessas redes, foi organizado em setembro de 1956 o 1° Congresso dos Escritores e Artistas Negros na Universidade de Sorbonne, em Paris. O evento foi crucial para os debates em torno dos processos de independência que se intensificaram nos anos seguintes e teve ampla presença de figuras que se tornaram centrais na crítica ao colonialismo e ao racismo em todo o mundo.
A dimensão dessa presença fica patente em uma fotografia que registra parte dos participantes do evento. Dentre os pintores, estavam o sul-africano Gerard Sekoto (2), grande amigo de Tibério e parceiro em diferentes projetos, e Ben Enwonwu (3), figura central no nascente modernismo da Nigéria independente. Entre os intelectuais africanos, estavam o poeta Léopold Sédar Senghor (4), que se tornaria o primeiro presidente do Senegal; o historiador também senegalês Cheik Anta Diop (5) e o escritor malinês Amadou Hampâté Bâ (6), que produziram importantes bases para que intelectuais africanos pudessem narrar eles mesmos a história do continente. Dentre os políticos, estavam pessoas que se tornaram essenciais na tardia independência dos países africanos de colonização portuguesa: Mário Pinto de Andrade (7), fundador do Movimento Popular de Libertação de Angola e Marcelino dos Santos (8), fundador da Frente de Libertação de Moçambique.
Entre os intelectuais negros nascidos nas Américas, estavam o escritor estadunidense Richard Wright (9), os intelectuais martiniquenses Aimé Césaire (10), Frantz Fanon (11) e Édouard Glissant (12), além do etnógrafo e político haitiano Jean Price-Mars (13) e sua esposa Marie-Rose Clara Perez (14).
legenda do filme 'Wilson Tibério' de Clementino Jr.
Durante o desenvolvimento de pesquisa e curadoria da exposição, comissionamos ao cineasta Clementino de Jesus Júnior um curta-metragem ensaístico acerca da trajetória de Wilson Tibério. Em seu processo criativo, o cineasta partiu de um extenso volume de imagens oriundas de diferentes arquivos para fabular sobre os sentimentos que guiaram seu longo périplo, partindo do Brasil, pela Europa, África e Ásia. As inseguranças de ir sem saber se voltaria, as descobertas fascinantes a cada porto e as lutas que se engajou ao longo de sua vida. Nesses caminhos, Clementino nos mostra um Tibério que, em nenhum momento, foi indiferente às injustiças que presenciou, e as combateu na ação direta, entre seu pincel e sua militância política.

Ficha técnica no núcleo
Wilson Tibério
Curadoria
Bruno Pinheiro e Marcelo Campos
Edição e tratamento de imagem
Tratamento da Imagem







